segunda-feira, 18 de junho de 2012

UM SAMBA..., UM BAR..., UM OLHAR...,



Participo normalmente, a cada 15 dias, de um encontro de sambistas chamado de 'Sindicatis Du Samba', num ponto que poderia ser qualquer outro, mas, tinha que ser num bar chamado..., Santo Mé. Se o nome 'Sindicatis' já faz alusão ao grande Mussum, sambista consagrado no antigo 'Originais Do Samba', outro não poderia ser, o nome do lugar.

E lá fui eu. Quando lá cheguei, muita gente lá estava. Lá estava o bom samba. Lá, tudo fica muito longe dos pagodinhos modernos; de batidas repetidas; de três ou quatro meninos que se dizem sambistas, mas, fazem uma música pequenina; com versos não tão ricos e rimas muito pobres. Grupos arrumadinhos; cantores pequenininhos, fingido que interpretam e principalmente sem as..., mãozinhas pra cima; sem tirar do chão os pezinhos; com movimentinhos ensaiadinhos e graças a Deus, lá com tudo muito longe de todos esses 'inhos'.

Nosso samba é da antiga; a batida do surdo é ritmada; o pandeiro moleque; cavaco atrevido, o violão de sete cordas com baixaria impecável. A cuíca centrada. O reco-reco aparece sem incomodar; o chocalho discreto, agogô equilibrado, um tantã aqui, timbal ali, e cantores com vozes potentes; poesia de métrica perfeita e rima rica, em linha melódica que cada dia está mais difícil de se encontrar.

E que não pense quem ler este texto, que são pessoas com mais de cinquenta anos, ou gente da antiga. Os músicos são jovens, cantores idem. Um ou outro participante está na casa dos quarenta. O mais velho do grupo, sou eu.

É interessante notar que dos participantes, muitos são compositores e têm samba autoral apresentado ali, ao vivo, sem nenhuma complicação. Tem poetas partideiros que são novos na idade, mas, versejam poesias que nada devem aos antigos mestres.

Sábado em particular, além de matar a saudade de alguns que não via fazia bom tempo eu estava recôndito, quase quieto, apreciando tudo à volta. Foi nesse apreciar, que num repente, me vi..., sendo apreciado.

Sempre uma turma nova, a cada sábado, comparece para assistir. É como se o boca-a-boca, funcionasse na divulgação do trabalho, do lugar, do que ali acontece. Gente jovem, saudável, bonita, moças e rapazes, dão um hausto de vida todo especial, até porque, gente culta fica ainda mais bonita.

Uma moça..., moça mesmo; jovem e bonita; junto de duas outras, a certa distância, pelo espaço entre uma das colunas do balcão frigorifico e as costas duma pessoa, me olhava com certa duração. O que se passava na cabeça dela..., não sei. Meu furtivo olhar deslocou o dela.

Houve um tempo em que fui perceptivo, para não dizer..., malandro. É..., já ficou para trás o Rio de Janeiro; a Tijuca; Saens Penna; o Salgueiro, Palheta e outras lembranças. Mais tarde..., Beco das garrafas; Night And Day; Rua Prado Junior em Copacabana, Barril 1800, Rua Montenegro, (atualmente Rua Vinicius de Moraes), tudo isso, lugares que me tiveram por algum tempo. Vida noturna carioca, Ipanema, Leblom..., hoje..., é saudade.

Naquela época eu me tocava bem cedo, ou então..., assumindo..., eu caçava com mais propriedade, era mais safo, mais rápido, e menos gente.

Voltei a procurar aquele olhar..., e lá estava ele, ou melhor, lá estava ela, me olhando novamente. Como isso faz bem pro ego..., como me senti vivo..., uma sensação nova e antiga ao mesmo tempo. Nova..., pois, de há muito, eu não fazia parte de uma situação como essa. Antiga..., porque, como isso já fez parte da minha vida, tal cena estará gravada, junto com outros sentimentos, a partir de agora, indelevelmente, num escaninho da minha memória.

Assim, conheço..., sei como é..., e justamente por esse motivo, me furtei a tentar qualquer aproximação. Lembro..., do meu 'antigamente'..., de quando uma mulher mais velha, se me visse para ela olhando, (tinham muitas interessantes), tentasse se chegar, eu dava um jeito de me mandar, sair do lugar e baixar em outras paragens. Faltava-me a experiência necessária para encarar um relacionamento dessa altura.

Contudo os tempos mudaram. As mulheres que sempre foram mais maduras evoluíram e agora, dão de '10 x 0' nos homens. Imagina se aquela moça que me olhava, tivesse cabeça, coragem para encarar o coroa, e..., me desse alguma abertura?

Confesso..., amarelei. Pela primeira vez na vida, amarelei. Tinha que haver a primeira vez. Não sei se é porque ela é 'muito'; se eu é que estou me sentindo 'pouco'; se a idade pesou; se minha consciência de homem casado..., gritou.

Enfim, assim ficou. Ali ficou. Lá ficou.

A situação se transformou em sonho, em devaneio, em realidade irreal. Mais um, dois, três olhares, foram trocados. Levantei-me, despedi-me de todos e sai.

Nos meus ouvidos a letra do samba que era cantado naquela hora:

Tudo que quiseres te darei ó flor...,
Menos meu amor.

Darei carinho se tiveres a necessidade,
E peço a Deus para lhe dar muita felicidade,
Infelizmente só não posso ter-te para mim,
Coisas da vida...., é mesmo assim.

Na minha cabeça a imagem dela. Na minha lembrança, um samba, um bar, um olhar.

5 comentários:

Joana Rolim disse...

O texto é lindo! Lindo porque você conta a vida, e a vida sabe se contar.
Quando você escreve assim, natural e espontaneamente, você entra no leitor.
A gente até fica torcendo para vocês se encontrarem novamente, ao som da música que você canta no final.
Depois você conta? Prometo que não conto pra...

Texto gostoso, que todo mundo já viveu e te entendeu.

Ana disse...

Concordo com Joana. Texto lindissimo.
Estava com saudades.

João Bello disse...

Maravilhoso irmão. Viajei...é bem assim a idade vai nos fazendo adivinhar os outros passos e despassos...e as vezes a UTOPIA do que seria é melhor do que o real.!!!Parabéns.

A sós com a humanidade disse...

Bonito texto.

A sós com a humanidade disse...

Bonito texto.
Como dizem por aqui: amarele não.
Se for pelo casamento ok. Mas pela diferença de idade? pfff! nem pense, que mulher pensa diferente.